terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A Nova Bíblia



Não sou cristã, mas já fui durante muito tempo. Deixei de ser por simples divergência com a organização da religião, a igreja em si, mas como pessoa que estudou a Bíblia, admiro e respeito os ensinamentos de paz, amor e humanidade pregados por Jesus. Ou pelo menos essa foi a mensagem que ficou para mim das leituras que eu fazia...
Recentemente tenho lido muitos comentários nas redes sociais de amigos cristãos declarados que me deixaram na dúvida sobre se de fato interpretei a Bíblia de modo certo ou se houve alguma mudança de que eu não esteja a par. Caros amigos cristãos praticantes, me tirem essa dúvida: teve alguma mudança na Bíblia que eu não esteja sabendo? Será que tiraram a passagem "Que atire a primeira pedra quem não tiver pecado" e colocaram "Bandido bom é bandido morto"no lugar? Ou que "direitos humanos para humanos direitos" está agora no lugar de "Amai ao teu próximo como a ti mesmo"? Sei lá, tô confusa.
De qualquer modo, deixo-vos com uma das minhas passagens preferidas do evangelho, que prega uma das virtudes que mais valorizo: a empatia.

"Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados; e com a medida que usardes para medir a outros, igualmente medirão a vós." - Mateus, 7:1-2

Palavra da Salvação

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Dia da Consciência Negra


Ao tentar passar para meus alunos alguma informação quanto ao dia da Consciência Negra, me deparei com o fato de que não sei NADA sobre a História Afro-Brasileira. Pesquisei uma ou outra coisa na internet sobre Zumbi e quilombos e João Cândido e A revolta da Chibata,  mas isso não deu conta de superar anos de ignorância. O fato é que não éramos ensinados sobre isso na escola. Nessa minha pesquisa, descobri também que em 2003 foi promulgada a lei 10.639 que determina o ensino de "História e Cultura Afro-brasileira e Africana" nas escolas. Neste ano eu já não estava mais na escola, mas posso pensar que a próxima geração poderá ser mais bem informada que eu, certo? Bem, não exatamente... Há uma séria defasagem de professores com proficiência suficiente para ensinar tal disciplina, o que se deve ao fato de que eles mesmos não foram educados para difundir essa cultura.

Vejo muitas pessoas comentando - "Por que um dia da Consciência Negra? Que exagero! Não precisa..." E é com vergonha que admito que já fui uma dessas pessoas. Creio, porém, que tal questionamento é antes motivado por ignorância que por puro e simples despeito. Enquanto tratarmos a História Afro-Brasileira como uma história à parte, estaremos tratando os negros do Brasil como um povo à parte. Quando finalmente entendermos que Zumbi e João Cândido são antes heróis nacionais, mais que simplesmente "heróis dos negros", estaremos entendendo que há um só povo com uma só historia em uma só nação. Enquanto houver aprendizado e luta a fim de caminharmos para a igualdade, deve, sim, haver “Dia da Consciência Negra”.  

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1) Em tempo, reconheço que nunca vou saber como é ser negra, ser olhada como negra, procurar emprego como negra, me relacionar no mundo como negra. Esse texto é somente um manifesto contra a ignorância (a minha própria ignorância, inclusive) em relação à História e Cultura Afro-Brasileira, porque entendo que a ignorância é um dos fatores que mais alimenta o preconceito. 

2) Foto de João Cândido Felisbertotambém conhecido como "Almirante negro" militar brasileiro da Marinha de Guerra do Brasil, líder da Revolta da Chibata (1910).

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Emaranhado


Qual pente se usa para desembaraçar os fios do pensamento? Aqui estou eu, tecelã que nada tece, presa nesse trabalho interminável. Perdida nessa estonteante profusão de cores e texturas, nada posso ainda produzir. E enquanto eu não produzir, os fios só vão se acumulando, se estragando, se empoeirando. A cabeça fica assim, tão cheia, que os fios já começam a se espalhar por aí. A garganta se enche de nós, os lábios se enchem de nãos e o coração fica tão cheio de lã embolada que quem quer que se dispusesse a entrar não caberia. De tão cheio, parece vazio, porque é cheio de coisas inúteis, de maria que não faz produto, de sono que não traz repouso porque é antes estupor, é antes sufocamento. Se ao menos eu  soubesse que ponta puxar primeiro...


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Comigo me desavim


Tentei escrever sobre o assunto, até que lembrei que Sá de Miranda já escreveu bem do jeitinho que eu queria dizer (há uns 500 anos atrás):

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Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.

Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho inimigo de mim?

sábado, 18 de janeiro de 2014

Isso


Ai de mim que não posso traduzir Isso por escrito. Essa Coisa que só pode ser exprimida por gritos, interjeições inescrevíveis, fonemas inexistentes em qualquer língua. Isso que de dentro do ser humano desperta e revolta-se e emerge. Isso que não é humano, sequer animal, mas que vive e se move, como uma enchente ou uma explosão.
Isso é líquido.
É fluido.
É violento.
A mão humana percorre corpos e espaços tentando se agarrar a algo, não quer deixar sua humanidade se perder no meio do barulho e do caos dIsso. O corpo se perde em espasmos sem sentido tentando lembrar como é ser humano... tentando, tentando e cada vez mais se parecendo com algo não-humano-sequer-animal.
Em meio a Issoa boca vocifera na língua do fogo, os olhos se voltam para dentro virados em farol, os membros são feito pedras soltas que rolam no fundo de um rio e a mente, se segurando em todos, todos, todos os fios de cabelo que pode, se balança suave e sussurra: "vai dar tudo certo".
Mas quem ouviria em meio a tudo Isso?

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Adaptado de "A insustentável leveza do ser - Milan Kundera"


"O cão jamais fora expulso do paraíso, ignora tudo sobre a dualidade do corpo e da alma e não conhece vergonha. Parece-me apenas que o casal é criado de forma tal que o amor do homem e da mulher é a priori de uma natureza inferior ao que pode existir (pelo menos na melhor de suas versões) entre um homem e um cachorro.  É um amor desinteressado, eu não quero nada do meu cão. Nem mesmo amor exijo. Nunca precisei fazer perguntas que atormentam os casais humanos: será que ele me ama? será que gosta mais de mim do que eu dele? terá gostado de mais alguém além de mim? Todas essas perguntas que interrogam o amor, o avaliam, o investigam, o examinam, será que não ameaçam destruí-lo no próprio embrião? Se somos incapazes de amar, talvez seja porque desejamos ser amados, quer dizer, queremos alguma coisa do outro (o amor), em vez de chegar a ele sem reivindicações, desejando apenas sua presença.
Aceitei meu cão tal qual é, não procurei torná-lo minha imagem, aceitei de saída seu universo de cachorro, não desejei confiscar nada  dele, não sinto ciúmes de suas tendências secretas.
Nenhum ser humano pode oferecer a outro o idílio. Só o animal pode, porque não foi expulso do Paraíso. O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dramáticas, sem evolução."

À meu amor idílico, minha cachorra 'Funny', que em janeiro completa 16 anos.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A Gota D'água





Cansado de há tempos caminhar por ressequidos pastos, eis que o animal sedento avista A Água que tanto buscava.  É a melhor das fontes que já vira, a que tem a água mais fresca, a mais limpa, a mais pura. A visão da gota cristalina fascina o bicho. Enfim alivio para sua sede! 

Mas tão logo as pequenas e frágeis gotas brotam da fonte, o sol que as faz brilhar as seca. Em vão o bicho cava, gruda o focinho, aguça os sentidos. A água é boa, mas não há muita. E com todo o esforço a sede só aumenta.

Por mais lindo que seja o espetáculo das gotinhas diamantes brilhando e sumindo ao sol, sou bicho. Corpo de bicho tem necessidades. Ao leste há um lago de águas barrentas que são minhas velhas conhecidas. Para lá caminharão quatro patas exaustas e resignadas, cientes da abundância que as aguarda.


Corpo de bicho tem necessidades simples. Não precisa água de brilhar no sol. Precisa água de matar a sede. 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

PA

Numa progressão aritmética, se a razão é negativa, não importa o quão alto seja o termo inicial, o destino da progressão é decrescer a zero. E se a razão é positiva, o termo inicial pode até ser negativo, mas os termos seguintes estarão sempre crescendo rumo ao infinito.

Mas o coração tem razões que a própria razão desconhece, e não há fórmulas que decifrem em quais termos isso vai dar.

domingo, 21 de julho de 2013

Defenses down


Amor, o teu sorriso não me engana.
Também eu tenho sorrisos falsos para mostrar ao mundo.
Todos nós vestimos escudos e armaduras
E, feridos, ficamos tentados a permitir
que para sempre nos protejam.

Tão ou mais importante que saber quando subir suas defesas
é saber quando baixá-las.
Num dia lindo de sol como este
é preciso abrir a viseira do elmo para ver o sol.
                                                  É preciso abrir a couraça para sentir o vento. 
            É preciso apoiar o escudo para correr mais leve.

                                                   Covarde o que vive de armadura no mundo!
                                                   Duro e forte, mas esquecido
                                                   de que está fadado à ferrugem.

                                                   Vem ser de carne e osso comigo.
                                                   Vem sentir o calor das minhas mãos nuas.
                                                   Vem, amor, apóia a lança. 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Band-aid



Ele cobriu minhas feridas por um tempo, mas agora elas têm que respirar e se curar sozinhas.

Band-aid é bem rápido que se arranca. Dói e às vezes até leva um pedaço seu. E deixa a marca dele na sua pele. 

Band-aid é bem rápido que se arranca. Dói, mas vai passar.