sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Adaptado de "A insustentável leveza do ser - Milan Kundera"


"O cão jamais fora expulso do paraíso, ignora tudo sobre a dualidade do corpo e da alma e não conhece vergonha. Parece-me apenas que o casal é criado de forma tal que o amor do homem e da mulher é a priori de uma natureza inferior ao que pode existir (pelo menos na melhor de suas versões) entre um homem e um cachorro.  É um amor desinteressado, eu não quero nada do meu cão. Nem mesmo amor exijo. Nunca precisei fazer perguntas que atormentam os casais humanos: será que ele me ama? será que gosta mais de mim do que eu dele? terá gostado de mais alguém além de mim? Todas essas perguntas que interrogam o amor, o avaliam, o investigam, o examinam, será que não ameaçam destruí-lo no próprio embrião? Se somos incapazes de amar, talvez seja porque desejamos ser amados, quer dizer, queremos alguma coisa do outro (o amor), em vez de chegar a ele sem reivindicações, desejando apenas sua presença.
Aceitei meu cão tal qual é, não procurei torná-lo minha imagem, aceitei de saída seu universo de cachorro, não desejei confiscar nada  dele, não sinto ciúmes de suas tendências secretas.
Nenhum ser humano pode oferecer a outro o idílio. Só o animal pode, porque não foi expulso do Paraíso. O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dramáticas, sem evolução."

À meu amor idílico, minha cachorra 'Funny', que em janeiro completa 16 anos.

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