sábado, 11 de junho de 2011

Sonho

Ultimamente tenho tido sonhos cada vez mais estranhos, mas o que tive essa semana me intrigou além do comum, então resolvi compartilhar. Não sei como é o seu posicionamento quanto a sonhos: se acredita que são retratos criptografados do nosso inconsciente, que são previsões do futuro, recados do além ou somente imagens aleatórias que se formam na nossa cabeça enquanto dormimos. Caso seja adepto da ultima teoria, leia apenas como mera narrativa de uma história non sense. Caso seja adepto a quaisquer uma das outras, opine por favor, pois também sou adepta da teoria de que sonhos podem ser interpretados e este despertou muito a minha curiosidade. Vamos a ele:

Minha mãe estava morta e voltou pra me mostrar onde ela vivia agora. Nos transportamos para um hipermercado imenso, muito claro e cheio de variedades, de bijuterias e roupas a material de limpeza, passando por toda sorte de alimentos. Ela disse que eu poderia comprar o que eu quisesse lá, estava muito feliz. Me interessei por uma banca de frutas com fatias de melancia lindas e bem vermelhas. O vendedor, um senhor de uns 40 e poucos anos, todo de branco e de aparência muito distinta veio me atender. Perguntou se eu trouxera um prato. Eu disse que não, ao mesmo tempo me perguntando como diabos um morto haveria de trazer um prato já que da vida nada se leva, mas não ousando questionar: eu era apenas uma visitante. Em seguida ele pegou um prato de louça branca e com uma mini serra cortou-o ao meio. Perguntei o porquê daquilo, ele disse que tinham que economizar os pratos. Minha mãe assentiu achando tudo normal. Após comer a melancia ele me perguntou se isso seria tudo que eu compraria. Minha mãe queria me fazer comprar mais coisas, muito empolgada em me mostrar tudo, mas eu não quis. Ele então escreveu num papel minha conta e me deu. Comecei a me preocupar em como haveria de pagar aquilo se estava sem dinheiro, minha mãe me tranqüilizou e disse que não precisávamos pagar, era tudo só para efeito de controle. Achei muito burocrático para o paraíso, mas aceitei. Saímos do hipermercado e entramos em um mercadinho onde ela pôs seu uniforme, sentou-se no caixa e começou a trabalhar. Nos despedimos e voltei para a vida. Eu estava revoltadíssima com o paraíso! Como a minha mãe, depois de uma vida inteira de trabalho, morre e não pode nem ter seu descanso eterno?! Não era justo! Precisávamos mudar isso! Isso e muitas outras coisas no paraíso... havia muitas coisas estranhas por lá. Burocracia no paraíso? Economia de prato no paraíso?

Contei da aventura e da revolta para meu irmão. Só para constar, eu não tenho um irmão na vida real, mas no sonho eu tinha. Então depois de compartilhar com ele meu ponto de vista, nos pusemos a pesquisar esse paraíso meio torto e descobrimos que na verdade era o purgatório, e as pessoas que lá estavam sequer sabiam disso, por isso se conformavam e por lá mesmo ficavam. Concordamos então que a melhor solução seria um de nós morrer e ir pra lá armar uma revolução. Ficou combinado que eu o mataria.

Corta a cena e acordo no purgatório, no meio de uma rua bem movimentada na qual quase fui atropelada. Assustada, corro pra calcada, onde fui recepcionada por uma senhora meio maltrapilha e um tanto assustadora. Eu estava porcamente enrolada em um lençol verde claro. Não entendi muito bem o porquê de eu estar ali. A senhora me explicou que após eu matar meu irmão, meu pai (que também não era o mesmo da vida real, era outra pessoa) ficou revoltado e me matou. Como eu era uma assassina, eu deveria ir para o bairro dos assassinos, onde meu irmão suicida me aguardava já. Meu pai, quando morresse, se juntaria a nós também, disse ela.

Então fomos nos embrenhando pela cidade, duas mendigas maltrapilhas. As pessoas desviavam o olhar, talvez temerosas de, ao cruzarem o olhar conosco, tivessem que se apiedar e dar uma esmola. Na verdade elas não tinham a mínima idéia do que eu representava, tão envolvidas que estavam naquela realidade delas, tão ignorantes da verdadeira culpa que também carregavam. Sim, eu sabia de tudo isso devido ao prévio estudo do terreno que havia feito com meu irmão... mas eu não havia me preparado para o inferno e estava com muito, muito medo.

Chegamos a uma ruela bem diferente do resto da impecável e moderna cidade que era o purgatório. A rua estava bem suja e sem iluminação. Era dia, mas a rua estava escura e cinzenta. As casas eram muito velhas e com pintura descascando. No final da rua entramos na casa verde clara, mesmo tom do meu lençol, pintura descascando assim como as outras. A casa por dentro cheirava a mofo. A velha nos guiou até a sala (pois nesse ponto meu irmão havia se juntado a nós vindo sei lá de onde, uma destas falhas na realidade que nos sonhos fazem sentido). Na sala, um sofá de estofado de plástico imitando couro, marrom e descascado. A velha nos orientou sobre as regras da casa: primeiramente, rasgar nossas roupas, pois qualquer coisa nova e intacta poderia despertar a atenção ou ate a fúria dos antigos moradores. Assim fizemos. Depois, uma regra muito importante: só sair de casa a noite e nunca pra fora dos limites do bairro. “As pessoas da cidade –  disse ela –  que na verdade são a grande maioria da população, não devem ser perturbadas pela sua existência.” Nesse momento, esquecendo da minha condição de condenada, fiquei muito triste pela população, cuja grande maioria acabava no purgatório.

A casa era como uma republica, com um grande dormitório conjunto. Eu estava com muito medo de como seria viver no meio de assassinos. A velha nos levou ao quarto e fomos entrando timidamente. Lá dentro um papo animado sobre o que havia de bom pra fazer essa noite. Um rapaz era o mais falante e se animou com a nossa presença, já dizendo que íamos todos sair pra beber e contando das coisas legais que faziam a noite. E aí comecei a pensar que os assassinos eram gente tão normal quanto a gente, e pensei que assim como as circunstâncias nos haviam levado ate lá, quais circunstancias não haviam levado aquela gente pra lá também? 

Sem esquecer do meu objetivo de fazer revolução, já fui pensando em um jeito de sair daquela realidade, na qual os assassinos pareciam também estar bem acomodados. Como saiam a noite, imaginei logo que deveria haver um bar que os servisse onde a gente da cidade não quereria trabalhar, então já fui arquitetando um possível emprego, pois me parecia muito lógico que o trabalho me enobreceria e de alguma forma aumentando meu status para que eu pudesse ser merecedora de frequentar a cidade. Depois pensei em como me dariam um emprego com aquelas roupas...  e estava muito entretida fazendo planos e pensando muito... até que acordei! 

Fiquei obviamente aliviada por aquilo tudo ser somente um sonho... mas ao mesmo tempo frustrada de não ter conseguido seguir com meu plano. Sabe quando você leva um tempo pra se desvencilhar da história? E também muito, muitíssimo intrigada é claro...

Bem, esse foi o sonho! Juro que contei exatamente tudo do jeitinho que foi. Isso não é um daqueles contos que se fingem de verdade... acho que não teria criatividade pra tanto... Mas aparentemente meu inconsciente teve!
Por favor, mande sua interpretação!

Atual residência: Ó mar salgado
Música do dia: With or Without you - Keane U2 cover


3 comentários:

Clara Edwiges disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Clara Edwiges disse...

Ó de sonho nonsense eu entendo pois estou com a cabeça lotada deles, mas interpretar, sei não. Você falando de letra antiga de quadrilha, e eu ontem lembrando daquele programa que "no final, você decide". Me senti anciã. lol

Um Simples Leitor... disse...

Tenho para mim que sonhos são apenas sonhos, não creio "muito" que eles tenhão ou influenciam em nossa vida real mais tudo é possivel..

Gostei do seu sonho, achei que vc conseguiu extrair bastante dele e a historia ficou bacana...

Você tem uma mente bem criativa...