sexta-feira, 30 de maio de 2014

Comigo me desavim


Tentei escrever sobre o assunto, até que lembrei que Sá de Miranda já escreveu bem do jeitinho que eu queria dizer (há uns 500 anos atrás):

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Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.

Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho inimigo de mim?

sábado, 18 de janeiro de 2014

Isso


Ai de mim que não posso traduzir Isso por escrito. Essa Coisa que só pode ser exprimida por gritos, interjeições inescrevíveis, fonemas inexistentes em qualquer língua. Isso que de dentro do ser humano desperta e revolta-se e emerge. Isso que não é humano, sequer animal, mas que vive e se move, como uma enchente ou uma explosão.
Isso é líquido.
É fluido.
É violento.
A mão humana percorre corpos e espaços tentando se agarrar a algo, não quer deixar sua humanidade se perder no meio do barulho e do caos dIsso. O corpo se perde em espasmos sem sentido tentando lembrar como é ser humano... tentando, tentando e cada vez mais se parecendo com algo não-humano-sequer-animal.
Em meio a Issoa boca vocifera na língua do fogo, os olhos se voltam para dentro virados em farol, os membros são feito pedras soltas que rolam no fundo de um rio e a mente, se segurando em todos, todos, todos os fios de cabelo que pode, se balança suave e sussurra: "vai dar tudo certo".
Mas quem ouviria em meio a tudo Isso?

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Adaptado de "A insustentável leveza do ser - Milan Kundera"


"O cão jamais fora expulso do paraíso, ignora tudo sobre a dualidade do corpo e da alma e não conhece vergonha. Parece-me apenas que o casal é criado de forma tal que o amor do homem e da mulher é a priori de uma natureza inferior ao que pode existir (pelo menos na melhor de suas versões) entre um homem e um cachorro.  É um amor desinteressado, eu não quero nada do meu cão. Nem mesmo amor exijo. Nunca precisei fazer perguntas que atormentam os casais humanos: será que ele me ama? será que gosta mais de mim do que eu dele? terá gostado de mais alguém além de mim? Todas essas perguntas que interrogam o amor, o avaliam, o investigam, o examinam, será que não ameaçam destruí-lo no próprio embrião? Se somos incapazes de amar, talvez seja porque desejamos ser amados, quer dizer, queremos alguma coisa do outro (o amor), em vez de chegar a ele sem reivindicações, desejando apenas sua presença.
Aceitei meu cão tal qual é, não procurei torná-lo minha imagem, aceitei de saída seu universo de cachorro, não desejei confiscar nada  dele, não sinto ciúmes de suas tendências secretas.
Nenhum ser humano pode oferecer a outro o idílio. Só o animal pode, porque não foi expulso do Paraíso. O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dramáticas, sem evolução."

À meu amor idílico, minha cachorra 'Funny', que em janeiro completa 16 anos.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

A Gota D'água





Cansado de há tempos caminhar por ressequidos pastos, eis que o animal sedento avista A Água que tanto buscava.  É a melhor das fontes que já vira, a que tem a água mais fresca, a mais limpa, a mais pura. A visão da gota cristalina fascina o bicho. Enfim alivio para sua sede! 

Mas tão logo as pequenas e frágeis gotas brotam da fonte, o sol que as faz brilhar as seca. Em vão o bicho cava, gruda o focinho, aguça os sentidos. A água é boa, mas não há muita. E com todo o esforço a sede só aumenta.

Por mais lindo que seja o espetáculo das gotinhas diamantes brilhando e sumindo ao sol, sou bicho. Corpo de bicho tem necessidades. Ao leste há um lago de águas barrentas que são minhas velhas conhecidas. Para lá caminharão quatro patas exaustas e resignadas, cientes da abundância que as aguarda.


Corpo de bicho tem necessidades simples. Não precisa água de brilhar no sol. Precisa água de matar a sede. 

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

PA

Numa progressão aritmética, se a razão é negativa, não importa o quão alto seja o termo inicial, o destino da progressão é decrescer a zero. E se a razão é positiva, o termo inicial pode até ser negativo, mas os termos seguintes estarão sempre crescendo rumo ao infinito.

Mas o coração tem razões que a própria razão desconhece, e não há fórmulas que decifrem em quais termos isso vai dar.

domingo, 21 de julho de 2013

Defenses down


Amor, o teu sorriso não me engana.
Também eu tenho sorrisos falsos para mostrar ao mundo.
Todos nós vestimos escudos e armaduras
E, feridos, ficamos tentados a permitir
que para sempre nos protejam.

Tão ou mais importante que saber quando subir suas defesas
é saber quando baixá-las.
Num dia lindo de sol como este
é preciso abrir a viseira do elmo para ver o sol.
                                                  É preciso abrir a couraça para sentir o vento. 
            É preciso apoiar o escudo para correr mais leve.

                                                   Covarde o que vive de armadura no mundo!
                                                   Duro e forte, mas esquecido
                                                   de que está fadado à ferrugem.

                                                   Vem ser de carne e osso comigo.
                                                   Vem sentir o calor das minhas mãos nuas.
                                                   Vem, amor, apóia a lança. 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Band-aid



Ele cobriu minhas feridas por um tempo, mas agora elas têm que respirar e se curar sozinhas.

Band-aid é bem rápido que se arranca. Dói e às vezes até leva um pedaço seu. E deixa a marca dele na sua pele. 

Band-aid é bem rápido que se arranca. Dói, mas vai passar.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

o tédio é uma coisa morta

a tristeza é essa coisa morta
mofando na geladeira

a depressão é quando a coisa morta
mofando na geladeira
é você





* Outro texto antigo, porque nada mudou.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Paixão Platônica


Camila:
Essa situação toda me deixa muito ansiosa. Não me sinto forte o suficiente para lidar com isso.

Tom:
Mas você tem a paixão, e isso é o suficiente.

Camila: 
Não, não é. Paixão sem atitude não gera nada além de uma paixão platônica. Não traz resultados.

Tom:
Mas se a ação te deixa ansiosa e você já está lidando com outros problemas, não valeria a pena passar por isso. 



*Conversa sobre o fato de eu não estar conseguindo participar das manifestações... mas poderia se aplicar a tantas outras coisas...

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Solo

Quando o querer não se contenta
Com o quente da alma
E o pensamento rebenta
Depressa e de calma

Teu toque que eu tanto esperava
E tanto queria,
Teu rosto que eu vezes lembrava
E no mais esquecia,
Teu gosto que eu adivinhava,
De água e semente,
Teu corpo que só descansava
No morno da mente

É mão que vem intranquila
Por montes e guizos
E a boca entreaberta suspira:
“Perdeste o juízo!”

**Poema que escrevi há anos, mas hoje me vieram os primeiros versos à cabeça do nada (mentira, teve motivo)