Eu sabia que meu coração era terra fértil onde amor brotava das sementes mais pequenas. Então decidi fechar todos os portões, impermeabilizar os entornos com muito álcool e fumaça, não deixar que nada vivo se aproximasse.
Mas eis que de uma dessas esquinas escuras onde é sabido que nada brota, eis que de uma dessas esquinas soprou um vento. E o vento espalhou a fumaça, o vento fez do álcool vapor entorpecente e fez tudo ficar irrespirável... tive que abrir os portões. O vento invadiu, sacudiu cabelos, trouxe com ele uma semente morena que pousou em minhas terras como um beijo respeitoso pousa nas mãos.
Achei que essa não vingava. Veio de terras inférteis, pousou tão de leve que eu mal senti seu toque... mas nos últimos dias tenho sentido aquelas cócegas bem peculiares que as raízes fazem enquanto se aprofundam. O ar tem parecido mais oxigenado, como se houvesse folhas molhadas por perto...
Sei que um dia tenho que deixar algo brotar nessas terras feitas férteis por algum motivo. Mas vigio este broto novo com um pouco mais de cuidado, por ter vindo de terras sombrias. Que seja planta medicinal, não daninha... Que seja semente de rosa, não de baobá! Porque capinar deixa sempre cicatriz na terra.
Atual residência: Niterói - RJ
Música do dia: All by myself - Celine Dion

Um comentário:
que lindo!
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