Depois de ter a bagagem “randomicamente” escolhida para ser revistada por guardas americanos com luvas descartáveis (provavelmente nada a ver com o fato de eu ser brasileira) que jogaram meu hidratante e protetor solar fora, finalmente eu estava no avião rumo a Orlando. Era um vôo doméstico partindo de Baltimore com escala em alguma cidadezinha da Carolina do Norte, não lembro o nome. A felicidade brilhava com a força da inocência nos meus olhos. Meu peito palpitava de expectativa. Devo ter suspirado meio alto até, o pensamento perdido num amor em português... Por isso demorei um pouco a entender o que dizia aquele senhor americano sentado ao meu lado:
– Going to Boston?
– Hã? Oh, no... Orlando!
Minha resposta saiu num inglês surpreendido, o sotaque inevitável. Ele gostou do sotaque, perguntou de onde eu era e me contou da amiga portuguesa que tinha um sotaque parecido com o meu. Era um senhor agradável, a viagem seria relativamente longa e devo confessar que voar sempre me deixa um pouco apreensiva: um chat até cairia bem.
Ele me contou que estava indo para Boston a negócios, me contou do trabalho dele, me contou dos filhos que eram da minha idade e que há anos não via. Conversamos sobre sotaques e idiomas, sobre culturas e povos, sobre a revista da minha bagagem e o preconceito de americanos contra latinos. Eu, tão cheia de empolgação e de dúvidas, acabei contando para a ele da importância daquela viagem, meus dilemas e minhas esperanças... principalmente as esperanças. Porque naquele dia, o que brilhava nos meu olhos, palpitava no meu peito, o que eu suspirava – eu devia ter notado – era a mais pura esperança... Mas ele, um senhor experiente, um senhor com filhos da minha idade, ele notou. Hoje, olhando de longe e sabendo que fim teve a minha história, consigo ver que ele notou....
– You’re such a beautiful girl! – ele dizia e repetia. Ele me disse tanto o quanto eu era bonita que me deixou até sem graça... mas dizia com o carinho de um pai que vê que sua menina vai se estrepar e não sabe bem o que dizer...
Eu sempre fui do tipo ingênua. Me estrepei, me estrepo, me estreparei e não aprendo: ingênua é o que sou. E se há uma passagem da minha vida que ilustra bem essa autêntica ingenuidade é essa viagem. A esperança brilhava nos meus olhos aquele dia. E meu vizinho de poltrona sorria complacente. Talvez pensando nos filhos que não via há anos, talvez achando graça daquela menina que fazia planos baseados em promessas, talvez invejando a época em que a esperança brilhava tão ou mais fortes nos olhos dele...
Após um vôo sem sustos e uma aterrissagem tranquila (ele riu do meu nervosismo durante a aterrissagem) chegamos à Carolina do Norte. Eu ia descer e pegar uma conexão para Orlando, ele ia permanecer no mesmo vôo. Nos despedimos com um aperto de mãos sincero:
– It was very nice to meet you, sir! Have a good trip!
– My pleasure... and good luck, young lady.
Os desejos de sorte eram sinceros, mas sem esperança alguma de se concretizar. Era um senhor experiente, sabia como as promessas dos homens a such beautiful girls eram quebradas.
Conhecer o reino mágico da Disney tem que ser com os olhos de criança. Conhecer o reino obscuro do amor, com que olhos a gente olha?
Na volta pra Baltimore, a despedida no aeroporto foi breve:
– Eu vou morrer de saudade quando estiver longe... – disse eu, já morrendo.
– Deixa pra pensar na saudade quando a saudade chegar. – e era como ele dizer: “Eu já estou tão longe e você nem percebeu.”
Ser ingênua é andar descalça e nua pela vida, exposta aos olhares maldosos dos passantes. Mais vulnerável a pancadas, a cortes e a ventos encanados, sim, mas caminhando sem peso algum, sentindo a textura da terra nos pés, sentindo a brisa de corpo inteiro. Se o preço para deixar de ser ingênua é não pegar um avião e ir atrás de sonhos, se é não dar papo ao coroa cheio de elogios no avião, se é não suspirar por amores... ora, deixa eu me estrepar! Os cortes e pancadas da vida são um pequeno preço a pagar pelo privilégio de vivê-la da forma mais plena.
No obscuro reino do amor só os ingênuos têm coragem de entrar.
Atual residência: mar irritadiço
Música do dia: O velho e o moço – Los Hermanos
Um comentário:
Entrei aqui pra responder o comentário carente: " vc não me segue. meu blog não consta nessa listinha aí do lado", mas daí li o post e me deparei com a velha Camila, de sempre, dizendo coisas bonitas demais.
Engraçado que eu estava falando agorinha com a minha amiga Silvana exatamente sobre não ter medo do que a vida traz ou de ir atras do que se deseja. E eu perguntando: " como é que faz isso? Como é que não se tem medo, como é que você lida com o cagaço de que tudo der errado".
Ela me disse o mesmo que vc escreveu. Ela não é ingênua, nem um tantinho " louca", como vc,m as ambas parecem ter aprendido desde sempre que cagaço , coerência, controle, garantias nem sempre são sinal de que tudo vvai dar certo. E quem disse que precisa dar certo,né?
Tô me sentindo estranha ainda com a coincidência do post e do telefonema.
Ah, quanto aos livros e ao blog, eu te sigo sim. meu nome tá aí do lado. vou te colocar no blogrrol . é que nunca lembro de atualizar aquele troço.
Ah ,eu leio tão pouco. Leio mais bobagens.
beijo
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